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Quinta Santa Bárbara alega ser “vítima de atividade meteorológica”, mas construiu em área de preservação

Quinta Santa Bárbara alega ser “vítima de atividade meteorológica”, mas construiu em área de preservação

access_time 2 meses ago

Empreendimento ocupa uma área de 60 mil m², onde existem cinco nascentes, sendo que quatro tiveram suas características alteradas durante as obras

Foto: Google Maps

Por: Giovanna Campos

O aumento do fluxo turístico em Pirenópolis, sem a devida estruturação da cidade, tem gerado preocupação entre moradores e ambientalistas. O caso do empreendimento Quinta Santa Bárbara é um dos exemplos que levantam questionamentos sobre impactos ambientais e urbanísticos na região. Localizado em terreno impermeável, o Bairro do Bonfim acima do Santa Bárbara, foi inundado neste domingo, 16. Em resposta, o resort disse que “foi vítima de uma atividade meteorológica de grande proporção”, mas a realidade é que houve uma disputa judicial para a construção do estabelecimento, que está dentro de uma Área de Preservação Permanente (APP).

Luiz Triers, guia turístico e presidente da Associação Cultural e Ecológica dos Artesãos em Prata de Pirenópolis (Aceapp), acompanhou o processo desde o início e aponta problemas estruturais que podem estar agravando situações como os recentes alagamentos na cidade. “Desde 2015, participei de audiências públicas sobre o empreendimento, e já há anos discutimos o impacto do aumento turístico sem estrutura urbana adequada. O bairro do Bonfim cresceu sem redes de galerias pluviais, e a água da chuva, que deveria ser canalizada, corre em enxurradas, acumulando-se em certas áreas”, explica ao Jornal Opção.

A falta de drenagem adequada é um dos principais problemas apontados pelos ambientalistas. Segundo Triers, na época da construção, a Delegacia Estadual do Meio Ambiente (DEMA) constatou alterações no solo que comprometeram sua capacidade natural de absorção de água. “O local já tinha essa função de drenagem natural. Com a construção, tudo foi coberto, e a absorção do solo não acontece mais, agravando a situação”, pontua.

Outro ponto polêmico do empreendimento é sua localização próxima a nascentes. “Já sabíamos disso e, na época, foi necessária a alteração do projeto para evitar a supressão de uma ou duas nascentes”, lembra Triers.

O modelo de negócio adotado pelo Quinta Santa Bárbara também gera críticas, pois permite a venda de cotas em um sistema de multipropriedade. “Isso favorece a especulação imobiliária e cria concorrência desleal com pousadas locais. Os primeiros investidores bancam a construção e depois pagam condomínio vitalício, enquanto uma empresa faz a locação dos apartamentos por diárias. O modelo de tributação favorece os grandes empreendimentos em detrimento dos pequenos negócios”, critica.

Mesmo com audiências públicas e mobilização popular, o projeto foi aprovado com algumas adequações. “A DEMA e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovaram o projeto, mas sua fachada destoa da arquitetura histórica de Pirenópolis. As casas da Rua do Bonfim tinham um padrão de recuo, e essa construção simplesmente ignorou isso”, observa Triers.

As recentes chuvas que causaram alagamentos na cidade reacenderam os debates sobre a urbanização desordenada e o impacto ambiental desses empreendimentos. “Não se trata apenas de um problema local, mas de infraestrutura municipal. O crescimento do turismo precisa ser acompanhado de planejamento urbano adequado, e não apenas de liberação de grandes empreendimentos sem considerar seus impactos”, conclui o guia turístico.

Em resposta ao Jornal Opção, a prefeitura de Pirenópolis afirmou que o resort apresentou todos os estudos e obteu a licença ambiental federal, estadual e municipal. A pasta também disse que o secretário de Meio Ambiente, César Augusto Feliciano, e sua equipe saíram às ruas para uma nova fiscalização nesta segunda-feira, 17.

Disputa na justiça

A construção do Quinta Santa Bárbara Eco Resort, no centro histórico de Pirenópolis (GO), tem sido marcada por polêmicas desde 2015, gerando preocupação entre moradores e embates na Justiça devido aos impactos ambientais. O empreendimento ocupa uma área de 60 mil m², onde existem cinco nascentes, sendo que quatro tiveram suas características alteradas durante as obras. Investigações da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente (Dema) indicaram a supressão de Área de Preservação Permanente, além de assoreamento e uso de substâncias químicas na região.

As obras tiveram início em 2016, mas foram alvo de questionamentos na Justiça, levando a uma série de suspensões e retomadas. O Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) chegou a suspender o alvará de construção em 2016, mas reverteu a decisão meses depois. Em 2018, a Polícia Civil indiciou a construtora B3 Incorporadora e Construtora e um dos sócios por crimes ambientais. Em 2019, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou a paralisação da obra, acatando denúncia do Ministério Público de Goiás (MP-GO).

Em 2020, um acordo firmado entre o MP-GO e a empresa Quinta Empreendimentos Imobiliários permitiu a retomada da construção, desde que houvesse readequação no projeto. A principal mudança foi o deslocamento dos blocos de apartamentos para fora da APP. Apesar da autorização, o empreendimento continua gerando debates sobre os impactos ambientais e a descaracterização do patrimônio histórico da cidade.

Veja o antes e depois

2005 | Foto: Google Maps

Em 2017 começa o canteiro de obras.

Na fachada o Iphan ainda permitiu um recuo para o estacionamento, o que tirou totalmente a linha que a rua já tinha, alterando o padrão das casas com fachadas na frente dos lotes, e não no fundo.

Veja abaixo como ficou.

2025 | Foto: Google Maps

Nota do Quinta Santa Bárbara

  • Ontem por volta de 12:35h partes da cidade de Pirenópolis foram atingidas por forte chuva;
  • Localizado em terreno impermeável, o Bairro do Bonfim acima do Quinta Santa Bárbara e áreas adjacentes recebeu o maior volume de água;
  • As enxurradas derrubaram muro lateral do Quinta Santa Bárbara e atingiram partes do Resort, provocando danos que ainda estão sendo apurados;
  • Os hóspedes entenderam a situação e alguns ajudaram na limpeza da recepção em interação com os colaboradores;
  • Foi tudo muito rápido! Nenhum dano físico em pessoas foi registrado. Os hóspedes residentes estão acomodados e outros fizeram “check-in” normalmente;
  • A equipe do Resort agiu rapidamente e com muita eficiência para limpar as áreas;
  • O projeto arquitetônico do Resort preservou a área com mais de 70% de permeabilidade do solo e possui preservados mais de 47 mil m² de APP e área verde;
  • Quando da sua construção o empreendimento já foi realizado com porte próprio de infraestrutura de grande proporção, para captação de enxurradas oriundas das áreas acima e recuperação do dano ambiental pré-existente. De lá para cá não há ocorrência recente de assoreamentos e alagamentos na Rua do Lazer e Ponte de Pedra;
  • Em verdade o Quinta Santa Bárbara foi vítima de uma atividade meteorológica de grande proporção, assim como outras famílias noutros bairros da cidade. A elas nossa solidariedade;
  • As imediações abaixo do Quinta Santa Bárbara não sofreram danos, pois o empreendimento serviu de bacia de contenção das enxurradas;
  • O Resort segue em operação atendendo seus hóspedes.

Quem são os proprietários

A empresa tem como sócios Flávio Guerra Peixoto, Joanes Carvalho Santos e Josemar Borges Jordão, além das empresas B10 Investimentos e Participações Ltda. e B3 Incorporadora e Construtora Ltda. Flávio Guerra Peixoto ingressou como sócio em 2020, mesmo ano em que foi firmado o acordo com o MP-GO.